Por Leonardo Barreiro *
Desde a abertura do mercado, que encerrou o duopólio entre Visanet e Redecard, a Abecs – Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços e seus associados trabalham continuamente para elevar o nível de segurança do ecossistema de meios de pagamento no Brasil. Esse esforço coletivo não é opcional: é uma resposta direta à sofisticação crescente das fraudes.
O problema que não desapareceu
Os dispositivos físicos de captura de pagamento foram, desde cedo, alvo preferencial de fraudadores. Os card skimmers — conhecidos no Brasil como “chupa-cabras” — surgiram nos caixas eletrônicos nos anos 1980 e migraram para os terminais POS à medida que o mercado evoluiu do papel-carbono para o eletrônico. A substituição do padrão tecnológico não eliminou a ameaça: ela apenas a deslocou.
No plano internacional, a resposta do setor foi a criação do PCI SSC e a consolidação de padrões globais de segurança de hardware — do PCI PED ao atual PCI PTS, hoje na versão 6.2. Esses padrões são necessários, mas não suficientes.
Por que o Brasil precisa de mais?
O Brasil é, simultaneamente, um mercado pioneiro em tecnologia de pagamentos e um dos mais visados por fraudes. Mesmo terminais com certificação PCI PTS internacional foram comprometidos em solo brasileiro. A certificação global garante o padrão mínimo; o mercado brasileiro exige um patamar adicional.
Foi com esse diagnóstico que a Abecs, em conjunto com seus associados (credenciadores, fabricantes e laboratórios), desenvolveu uma especificação complementar ao PCI PTS.
Hoje, não basta o fabricante ter a certificação internacional: é obrigatória também a certificação de segurança da Abecs para comercializar equipamentos no País.
O que muda com a Versão 8
A especificação é construída de forma colaborativa e revisada permanentemente. O grupo analisa cenários reais de ataque, compartilha aprendizados e antecipa ameaças emergentes. Publicada em março de 2026, a versão 8 representa um avanço significativo e traz três pilares:
- Escopo ampliado: cobre dispositivos e contextos que as versões anteriores não contemplavam
- Requisitos atualizados: incorpora respostas a vetores de ataque identificados nos últimos anos
- Visão de futuro: antecipa ameaças em um ecossistema em constante evolução, com novas modalidades de pagamento eletrônico
O que está em jogo
As maquininhas deixaram de ser exclusivamente terminais de cartão. Hoje, são o ponto de captura do Pix presencial, de pagamentos por aproximação e de novas modalidades em expansão. Tratar a segurança desses dispositivos como uma questão isolada de cartões é um equívoco estratégico.
A versão 8 da especificação da Abecs parte exatamente dessa compreensão: a segurança do dispositivo físico é a base do ecossistema — independentemente do instrumento de pagamento utilizado. As maquininhas de cartão também são utilizadas para receber Pix, prova de que a segurança precisa ser tratada de forma ampla e integrada.
Cronograma de adoção
A versão 8 foi publicada em março de 2026 e sua adoção segue um calendário estruturado para garantir que o mercado possa se adaptar com qualidade:
- Até dezembro de 2027: período de adoção opcional — fabricantes que já dispõem de terminais desenvolvidos e adequados às novas regras podem solicitar a certificação imediatamente, sem necessidade de aguardar o prazo final
- A partir de janeiro de 2028: adoção obrigatória — somente dispositivos certificados na nova versão poderão ser comercializados no País.
O prazo estendido até 2028 não é arbitrário: ele reflete o reconhecimento de que o desenvolvimento de novos dispositivos com base em especificações atualizadas demanda ciclos de engenharia, validação e homologação que levam tempo. O objetivo é garantir que a transição seja completa e segura — não apenas formal.
Fabricantes que se anteciparem saem na frente. A certificação antecipada representa vantagem competitiva concreta: renovação de portfólio antes dos concorrentes, maior aderência às exigências dos credenciadores e posicionamento diferenciado junto ao mercado.
Posição executiva
A nova especificação é o resultado de um trabalho colaborativo contínuo entre todos os elos do ecossistema de pagamentos — credenciadores, fabricantes e laboratórios. Ela representa a evolução natural de um processo que amadureceu com o mercado e que agora incorpora respostas a ameaças reais, documentadas e em evolução. Para a Abecs e seus associados, a mensagem é direta: a certificação é uma decisão estratégica, não apenas de conformidade. O prazo existe para viabilizar o desenvolvimento — não para adiar a decisão.
Este conteúdo reflete a opinião do autor, não necessariamente a posição oficial do portal.
*Leonardo Barreiro é coordenador do Comitê Segurança de Hardware da Abecs e especialista em Prevenção e Segurança da Cielo