Leonardo Barreiro para Panorama Abecs

Segurança que cresce com o mercado

14/07/2026

Por Leonardo Barreiro * 


Desde a abertura do mercado, que encerrou o duopólio entre Visanet e Redecard, a Abecs – Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços e seus associados trabalham continuamente para elevar o nível de segurança do ecossistema de meios de pagamento no Brasil. Esse esforço coletivo não é opcional: é uma resposta direta à sofisticação crescente das fraudes.

O problema que não desapareceu

Os dispositivos físicos de captura de pagamento foram, desde cedo, alvo preferencial de fraudadores. Os card skimmers — conhecidos no Brasil como “chupa-cabras” — surgiram nos caixas eletrônicos nos anos 1980 e migraram para os terminais POS à medida que o mercado evoluiu do papel-carbono para o eletrônico. A substituição do padrão tecnológico não eliminou a ameaça: ela apenas a deslocou.

No plano internacional, a resposta do setor foi a criação do PCI SSC e a consolidação de padrões globais de segurança de hardware — do PCI PED ao atual PCI PTS, hoje na versão 6.2. Esses padrões são necessários, mas não suficientes.

Por que o Brasil precisa de mais?

O Brasil é, simultaneamente, um mercado pioneiro em tecnologia de pagamentos e um dos mais visados por fraudes. Mesmo terminais com certificação PCI PTS internacional foram comprometidos em solo brasileiro. A certificação global garante o padrão mínimo; o mercado brasileiro exige um patamar adicional.

Foi com esse diagnóstico que a Abecs, em conjunto com seus associados (credenciadores, fabricantes e laboratórios), desenvolveu uma especificação complementar ao PCI PTS. 

Hoje, não basta o fabricante ter a certificação internacional: é obrigatória também a certificação de segurança da Abecs para comercializar equipamentos no País.

O que muda com a Versão 8

A especificação é construída de forma colaborativa e revisada permanentemente. O grupo analisa cenários reais de ataque, compartilha aprendizados e antecipa ameaças emergentes. Publicada em março de 2026, a versão 8 representa um avanço significativo e traz três pilares:

  • Escopo ampliado: cobre dispositivos e contextos que as versões anteriores não contemplavam
  • Requisitos atualizados: incorpora respostas a vetores de ataque identificados nos últimos anos
  • Visão de futuro: antecipa ameaças em um ecossistema em constante evolução, com novas modalidades de pagamento eletrônico

O que está em jogo

As maquininhas deixaram de ser exclusivamente terminais de cartão. Hoje, são o ponto de captura do Pix presencial, de pagamentos por aproximação e de novas modalidades em expansão. Tratar a segurança desses dispositivos como uma questão isolada de cartões é um equívoco estratégico.

A versão 8 da especificação da Abecs parte exatamente dessa compreensão: a segurança do dispositivo físico é a base do ecossistema — independentemente do instrumento de pagamento utilizado. As maquininhas de cartão também são utilizadas para receber Pix, prova de que a segurança precisa ser tratada de forma ampla e integrada.

Cronograma de adoção

A versão 8 foi publicada em março de 2026 e sua adoção segue um calendário estruturado para garantir que o mercado possa se adaptar com qualidade:

  • Até dezembro de 2027: período de adoção opcional — fabricantes que já dispõem de terminais desenvolvidos e adequados às novas regras podem solicitar a certificação imediatamente, sem necessidade de aguardar o prazo final
  • A partir de janeiro de 2028: adoção obrigatória — somente dispositivos certificados na nova versão poderão ser comercializados no País.

O prazo estendido até 2028 não é arbitrário: ele reflete o reconhecimento de que o desenvolvimento de novos dispositivos com base em especificações atualizadas demanda ciclos de engenharia, validação e homologação que levam tempo. O objetivo é garantir que a transição seja completa e segura — não apenas formal.

Fabricantes que se anteciparem saem na frente. A certificação antecipada representa vantagem competitiva concreta: renovação de portfólio antes dos concorrentes, maior aderência às exigências dos credenciadores e posicionamento diferenciado junto ao mercado.

Posição executiva

A nova especificação é o resultado de um trabalho colaborativo contínuo entre todos os elos do ecossistema de pagamentos — credenciadores, fabricantes e laboratórios. Ela representa a evolução natural de um processo que amadureceu com o mercado e que agora incorpora respostas a ameaças reais, documentadas e em evolução. Para a Abecs e seus associados, a mensagem é direta: a certificação é uma decisão estratégica, não apenas de conformidade. O prazo existe para viabilizar o desenvolvimento — não para adiar a decisão.

Este conteúdo reflete a opinião do autor, não necessariamente a posição oficial do portal.

*Leonardo Barreiro é coordenador do Comitê Segurança de Hardware da Abecs e especialista em Prevenção e Segurança da Cielo