Por Ricardo de Barros Vieira*
A indústria de meios eletrônicos de pagamento no Brasil tem capitaneado, ao longo das últimas décadas, uma transformação estrutural e cultural que moldou a dinâmica econômica e de consumo do país. O que começou como um sistema analógico, baseado em um cartão passando por uma máquina com papel carbono, evoluiu para uma infraestrutura tecnológica robusta, capaz de realizar operações complexas em milésimos de segundos e operar com segurança e volumes elevados, na casa dos trilhões de reais.
Um exemplo é que, só no ano passado, segundo dados da Abecs, associação que representa os meios eletrônicos de pagamento, foram realizados, em média, 132 milhões de pagamentos por dia, movimentando R$ 4,5 trilhões. Esse volume reflete a consolidação dos cartões de crédito, débito e pré-pagos como instrumentos amplamente utilizados, contribuindo para o acesso ao crédito e a organização financeira dos brasileiros.
Inovação como base da evolução dos pagamentos
Para que toda essa engenharia funcione, a inovação se consolidou como um dos principais vetores do setor. A introdução do chip, a tokenização e a difusão dos pagamentos por aproximação viabilizaram um modelo baseado em escala e eficiência. Em 2025, os pagamentos por aproximação movimentaram R$ 1,9 trilhão, enquanto as compras não presenciais com cartões somaram R$ 1,1 trilhão, segundo a Abecs. Nesse processo, o pagamento deixou de ser apenas físico para se tornar digital e, em muitos contextos, quase invisível.
O avanço do comércio agêntico e a IA
O estágio atual indica que a indústria atingiu um nível estruturado de operação, abrindo espaço para uma nova etapa de desenvolvimento onde a inteligência artificial (IA) assume o protagonismo. Um dos conceitos mais promissores neste novo cenário é o comércio agêntico, tema que ganha destaque nas discussões das bandeiras e do setor.
Nesse modelo, os sistemas deixam de ser passivos para interagir de forma ativa com o consumo. Por meio de assistentes e algoritmos inteligentes, os pagamentos poderão ser iniciados e concluídos de forma autônoma, com base em parâmetros e preferências definidos pelo próprio usuário. O pagamento, portanto, deixa de ser uma etapa isolada de liquidação para atuar como uma camada integrada à economia digital, antecipando necessidades e facilitando a jornada de compra.
Na prática, a IA permite que o setor participe das decisões financeiras com análise de dados em tempo real. Projeções da Abecs indicam que, acompanhando essa evolução tecnológica e a integração entre diferentes instrumentos, o setor poderá superar a marca de R$ 5 trilhões em transações anuais em 2026.
Eficiência e segurança contínua
É importante relembrar que todos os movimentos da indústria ocorrem paralelamente ao fortalecimento dos mecanismos de segurança. A combinação de IA, tokenização, autenticação biométrica e monitoramento transacional em tempo real tem sido fundamental. De acordo com o Monitor de Fraudes da Abecs, essas tecnologias contribuíram para uma redução de 23,8% no índice de fraudes com cartões nos últimos três anos.
Ao projetar os próximos anos, a incorporação da inteligência artificial e do comércio agêntico indica uma ampliação do papel dos meios de pagamento. Eles passam a atuar não apenas na liquidação, mas na organização da experiência financeira de consumidores e empresas, permitindo que os pagamentos do futuro sejam realizados de forma fluida e segura.

*Ricardo de Barros Vieira é vice-presidente executivo da Abecs.