Ricardo de Barros Vieira para Panorama Abecs

Escolher como pagar é apenas o começo 

29/09/2026

Por Ricardo de Barros Vieira*

Poucas indústrias têm uma relação tão direta com o funcionamento da economia quanto a de meios eletrônicos de pagamento. Todos os dias, milhões de brasileiros compram, vendem, empreendem, contratam serviços e movimentam recursos por meio de uma infraestrutura que precisa funcionar de forma rápida, segura, invisível e confiável. É uma atividade que muitas vezes passa despercebida justamente quando funciona como deve e, por isso, se tornou essencial para a vida econômica do nosso País.

Os números ajudam a dimensionar essa relevância. No primeiro semestre de 2026, os pagamentos com cartões movimentaram R$ 2,3 trilhões no Brasil, em uma média de 133 milhões de transações por dia. No segundo trimestre, os cartões responderam por 34,7% do Produto Interno Bruto (PIB) e por 56,3% do consumo das famílias. Mais do que demonstrar a escala do setor, esses indicadores mostram o quanto os meios de pagamento estão incorporados à atividade econômica brasileira.

Por trás de cada transação existe uma cadeia de tecnologia, processamento, crédito, autenticação, prevenção a fraudes e liquidação. Garantir que essa engrenagem funcione exige investimentos permanentes e, principalmente, cooperação entre empresas, reguladores e instituições de forma segura.

Segurança, aliás, é um dos pilares de todo o ecossistema de pagamentos. À medida que eles se tornam mais digitais, sofisticados e integrados à vida cotidiana, também evoluem as ferramentas de proteção. Tokenização, autenticação, inteligência artificial, certificação de terminais e mecanismos de prevenção e combate a fraudes fazem parte de uma agenda permanente. Nos últimos anos, o índice de fraudes com cartões caiu 23,8%, enquanto novas tecnologias ampliaram a segurança e a conveniência das transações.

A inovação também deixou de ser uma promessa para se tornar parte da experiência cotidiana. No primeiro semestre de 2026, os pagamentos por aproximação movimentaram R$ 1 trilhão e já representaram 76,2% das compras presenciais com cartões. O Tap on Phone, que transforma o celular em um terminal de pagamento, movimentou R$ 53,6 bilhões no mesmo período, crescimento de 79,1% em um ano. São exemplos de como a indústria amplia o acesso a soluções de pagamento e, ao mesmo tempo, reduz barreiras para consumidores e empresas.

Esse processo precisa ser acompanhado por uma visão de longo prazo. Uma indústria sustentável não é apenas aquela que cresce. É aquela que consegue combinar inovação, segurança, eficiência, inclusão e responsabilidade. Significa criar condições para que mais empresas possam vender, mais consumidores possam escolher como pagar e mais brasileiros possam participar da economia de forma saudável e financeiramente responsável.

Neste ponto, é importante tocarmos em um assunto sensível: a separação do debate sobre crédito do discurso simplista de que o cartão contribuiria para o endividamento das famílias. O cartão é, antes de tudo, uma ferramenta de pagamento, acesso ao crédito e organização financeira, utilizada de forma responsável pela maioria dos consumidores. Os dados mais recentes mostram que 75,7% do saldo da carteira de cartão de crédito estava, em julho, em operações sem cobrança de juros, enquanto o crédito rotativo representava apenas 2,7% do endividamento das famílias. Além disso, ainda conforme dados da Abecs, 85% dos brasileiros declararam pagar integralmente a fatura no vencimento, o que derruba qualquer tipo de narrativa simplista sobre os cartões serem vetores do endividamento. 

Isso não significa ignorar a importância do uso responsável do crédito. Ao contrário. Significa reconhecer que o cartão pode ser uma ferramenta de planejamento, controle e acesso ao consumo, além de um importante mecanismo de fomento ao crédito. O desafio é ampliar a educação financeira e estimular escolhas conscientes, preservando os benefícios que o instrumento oferece à economia e ao consumidor.

É justamente por isso que a atuação de uma entidade representativa se torna tão importante. Ao completar 55 anos, a Abecs celebra mais do que uma data. Celebra uma trajetória de construção coletiva e, principalmente, a responsabilidade de continuar ajudando a desenvolver uma indústria que já é parte fundamental da economia brasileira.

Os próximos anos trarão novas tecnologias, novos modelos de negócio e novos hábitos de consumo. Nosso compromisso é fazer com que essa transformação continue produzindo aquilo que realmente importa: mais eficiência, segurança, acesso, inovação e desenvolvimento para o Brasil. Ao fazer uma compra e escolher como pagar, você dá apenas o primeiro passo de uma jornada que vai muito além da transação. É só o começo…

*Ricardo de Barros Vieira é vice-presidente executivo da Abecs