Por Ricardo de Barros Vieira*
O endividamento do brasileiro é, sem dúvida, uma pauta de extrema importância para a sociedade e o aprimoramento contínuo do sistema financeiro nacional. O debate, porém, é rodeado por certos tabus e uma narrativa mais simplista do que o necessário para uma avaliação mais assertiva sobre o tema. As opiniões, muitas vezes, apontam o cartão de crédito como vetor das dívidas da população. Essa leitura, embora comum, não reflete a realidade nem a complexidade do tema.
Uma análise baseada em dados mostra que o cartão de crédito atua, principalmente, como instrumento de consumo, conveniência e organização financeira, não como o centro do desequilíbrio financeiro das famílias.
Indicadores ajudam a esclarecer esse ponto. De acordo com dados do Banco Central de junho deste ano, 74,7% de todo o saldo movimentado na carteira de cartão de crédito no Brasil são de operações sem cobrança de juros. A modalidade de crédito rotativo, frequentemente associada como o principal meio de endividamento dos brasileiros, representa apenas 2,7% do total das dívidas das pessoas físicas no País. A inadimplência do cartão, por sua vez, está em 9,6%, abaixo, por exemplo, do cheque especial (16,1%) e muito próxima do crédito pessoal não consignado (10,6%).
Ainda sobre o uso do estigmatizado rotativo, vale um olhar ainda mais profundo. Por força de regulação, o consumidor não pode ficar mais do que 30 dias nessa modalidade de crédito. Assim, essa “trava temporal” impossibilita aos juros cobrados chegar ao patamar anual geralmente divulgado. Além disso, mais um dado pertinente: aquele consumidor que eventualmente entra no rotativo do cartão permanece nessa dívida, em média, por apenas 14,1 dias, conforme dados de junho do Banco Central.
A taxa de juros do rotativo, é verdade, costuma aparecer em manchetes com números expressivos quando anualizada, prática convencional do Banco Central para permitir a comparação entre todas as modalidades de crédito. Mas essa métrica, aplicada a uma dívida que dura em média menos de 15 dias, distorce o custo real para o consumidor. Na prática, o encargo mensal gira em torno de 15%, o que não deixa de ser elevado, mas é muito diferente do que a taxa anualizada sugere. Esse é um ponto que merece clareza no debate público: comparar taxas anualizadas de produtos de curtíssimo prazo com financiamentos de longo prazo é metodologicamente inadequado e alimenta uma percepção distorcida sobre o cartão de crédito.
A relevância do cartão de crédito, nesse sentido, vai além do comportamento individual e se estende à economia do País. Trata-se do principal financiador do consumo de bens e serviços. A Abecs, associação que representa o setor, projeta que o volume a ser transacionado com cartões deva alcançar R$ 5 trilhões em 2026, crescimento entre 9,5% e 11,5% em relação a 2025. Hoje, os cartões já respondem por 56,3% do consumo das famílias e por 34,7% do Produto Interno Bruto (PIB), números que mostram o papel do cartão como peça central no funcionamento da economia e na organização das relações de consumo. Vale registrar, ainda, que a legislação brasileira proíbe o uso do cartão de crédito para apostas em plataformas de Bets, uma medida que reforça o compromisso do setor com o uso responsável do crédito.
A comparação com outras modalidades de crédito ajuda a dimensionar melhor essa discussão. Financiamentos imobiliários e de veículos, por exemplo, envolvem prazos longos, valores elevados e comprometimento significativo da renda por anos. São dívidas estruturais, que acompanham o orçamento familiar por longos períodos e têm peso relevante no nível de endividamento das famílias. Dados do Banco Central apontam que o financiamento imobiliário corresponde a 41% do endividamento da população, enquanto os financiamentos de veículos respondem por 11,9%. O rotativo do cartão representa, vale insistir, apenas 2,7%.
Isso porque o cartão de crédito tem natureza distinta. Seu uso predominante está associado ao curto prazo e ao pagamento integral da fatura, funcionando como meio de pagamento e ferramenta de gestão do fluxo de caixa. Mesmo quando há parcelamento, especialmente na modalidade “sem juros”, trata-se de uma forma de organizar despesas ao longo do tempo, sem custo financeiro adicional e com previsibilidade. Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, divulgada pela Abecs, mostra que 85% dos brasileiros quitam integralmente o valor da fatura no vencimento, assim como 80% apontam o cartão como aliado na organização das finanças pessoais.
Inadimplência precisa ser discutida mais amplamente
Como mencionei anteriormente, é salutar discutir o tema do endividamento no Brasil, no entanto é necessário um olhar mais abrangente. É muito importante saber diferenciar, por exemplo, conceitos como dívida e inadimplência. O endividamento, por si só, não é necessariamente um problema. Ele reflete a existência de compromissos financeiros ativos, como empréstimos, financiamentos ou compras parceladas, ou seja, são instrumentos que fazem parte da vida econômica das famílias. Os diversos instrumentos de crédito são alavancas importantes para o desenvolvimento da economia e dos indivíduos. Já a inadimplência corresponde ao não pagamento dessas obrigações nos prazos acordados, sendo esse, de fato, o ponto de atenção e que tem gerado discussões na sociedade.
No caso do cartão de crédito, essa distinção é ainda mais relevante. O uso do cartão está majoritariamente associado a operações de curto prazo e organizadas por meio do parcelamento “sem juros”. Além disso, o crédito rotativo tem limitação regulada e não pode gerar um valor de juros maior do que a dívida original (máximo de 100% independente do período).
É importante destacar que a inadimplência está associada a fatores mais amplos, como a pressão sobre a renda, o aumento do custo de vida e o comprometimento do orçamento com despesas essenciais.
Qualificar o debate sobre a inadimplência é fundamental. Isso passa pela análise de dados, pelo fortalecimento da educação financeira e pelo aperfeiçoamento contínuo do ambiente de crédito. Evitar simplificações é um passo importante para a construção de diagnósticos mais precisos e de soluções mais eficazes para o endividamento no Brasil.

*Ricardo de Barros Vieira é vice-presidente executivo da Abecs